POR
MÁRIO ROGÉRIO SILVAINVISIBILIDADE DO RACISMO
"A GERAÇÃO DE INFORMAÇÕES SOBRE A PRESENÇA OU AUSÊNCIA DE AFRODESCENDENTES NAS MAIS DIVERSAS INSTITUIÇÕES DO PAÍS É ESSENCIAL PARA EMBASAR AÇÕES DIRECIONADAS A SUPERAR A HISTÓRICA MARGINALIZAÇÃO DESSE SEGMENTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA."
"A AUSÊNCIA DA INFORMAÇÃO SOBRE RAÇA/COR NOS CADASTROS PÚBLICOS E PRIVADOS TEM SIDO UM GRANDE OBSTÁCULO NA COMPREENSÃO E ENFRENTAMENTO DO RACISMO"
CLASSIFICAÇÃO RACIAL E QUESITO COR
Ao contrário do que postula o senso comum, a classificação racial de pessoas está há muito tempo presente nos recenseamentos, mas também em alguns importantes cadastros públicos. Nos argumentos contra a classificação racial, o que se revela é a preocupação com uma suposta dificuldade em fazê-la, devido à miscigenação. Esse argumento trata a classificação racial como se fosse uma prática inédita que, teoricamente, teria surgido com a adoção de cotas nas universidades, ignorando que ela existe oficialmente há mais de 140 anos.
Segundo Kabengele Munanga, os conceitos e as classificações servem de ferramentas para operacionalizar o pensamento. Em qualquer operação de classificação, é preciso estabelecer critérios objetivos com base nas diferenças e nas semelhanças5. Munanga afirma que os naturalistas dos séculos XVIII e XIX não limitaram seus trabalhos somente à classificação dos grupos humanos em função das características físicas, mas se deram o direito de hierarquizar, isto é, estabelecer uma escala de valores entre as chamadas raças.
"(...) A INTRODUÇÃO DO QUESITO COR NOS CADASTROS PÚBLICOS E PRIVADOS SE TORNA ESSENCIAL. É UMA FORMA ÍMPAR DE COMBATER OS ESTIGMAS (...)"
A rigor, trata-se de um fenômeno que ganhou relevância a partir de 1995, quando as principais entidades e lideranças do Movimento Negro entregaram um documento ao Presidente da República com um diagnóstico pormenorizado da situação dos negros no Brasil e passaram a reivindicar abertamente políticas de promoção da igualdade racial.
Em novembro de 1995, os principais jornais do país registravam a mais notável manifestação contemporânea de rua organizada pelo Movimento Negro Brasileiro: a Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida, que reuniu cerca de 30 mil pessoas em Brasília no dia 20 de novembro daquele ano, ocasião em que os coordenadores do evento se encontraram com o presidente Fernando Henrique Cardoso e a ele entregaram um documento pactuado entre as principais organizações e lideranças negras do país. Nesse documento pode-se ler: “Democratização da Informação – inclusão do quesito cor em todo e qualquer sistema de informação sobre a população, cadastro do funcionalismo, usuários de serviços internos em instituições públicas, empregados, desempregados, inativos e pensionistas, e, particularmente, nas declarações de nascimentos, prontuários e atestado de óbito (grifo meu) para que se conheça o perfil da morbidade e da mortalidade da população negra no país. A criação desta base de dados da população negra é fundamental para a formulação de políticas públicas específicas para todas as áreas de interesse da questão racial”8. Fato é que a Marcha representou não apenas um promissor momento de ação unificada do conjunto da militância, como também marcou a eleição da proposta de políticas de promoção da igualdade como um tema de consenso no discurso da liderança negra. Algumas ações resultaram desses processos, como o Decreto 1.904, de 13 de maio de 1996, que instituiu o Programa Nacional de Direitos Humanos, com duas proposições ligadas à temática das políticas de promoção da igualdade: 1. Inclusão do quesito cor em todos e quaisquer sistemas de informação e registro sobre a população, e bancos de dados públicos; 2. Criação de um banco de dados sobre a situação dos direitos civis, econômicos e culturais da população negra na sociedade brasileira, que oriente políticas afirmativas para a promoção dessa comunidade9. A despeito de todo o debate registrado nos últimos anos, o ingresso das políticas de promoção da igualdade racial/cotas na mídia, nas casas legislativas e nos órgãos públicos ocorreu, inquestionavelmente, durante o processo preparatório da participação brasileira na Conferência de Durban, cujo auge aconteceu no segundo semestre de 2001.
PROJETO SINE BAHIA